Há coisas que eu não compreendo e com as quais não me consigo identificar. Será que fui eu que envelheci, que estagnei no tempo? Será que me tornei numa mulher retrógrada?
Não consigo ver nada de positivo numa ida para um minúsculo e paupérrimo país em África, sob o pretexto de ir à procura de um futuro melhor, de ter visto nisto um desafio aliciante, de achar que ali se vai ser útil.
E para trás o que se deixa? Um filho pequeno, a precisar muito da mãe, uns pais velhos e que amanhã podem já cá não estar. Será que vale a pena arriscar tanto? A mim parece-me que isto não passa de uma atitude egoísta e egocêntrica. Quase um devaneio de uma louca. Afinal, a pessoa em causa esteve sempre à espera dos empregos que as cunhas lhe arranjavam, esteve sempre serena, sentada no sofá à espera que lhe caísse algo no colo. Nunca soube o que era ir à luta pela necessidade.
Mas há sempre um “depois”. E neste caso, o “depois” veio com a separação do casal. “Depois” as cunhas ficaram mais difíceis, o empreededorismo e a atitude para agarrar o touro pelos cornos continuaram fechados numa caixa com cadeado cujas chaves se deitaram fora, e a boa vida acabou por ter um fim.
Mas a mim, o que mais me chocou foi, a sua resposta quando lhe perguntei se caso ficasse no tal país para o resto da vida, se não queria levar o filho. Com toda a frieza, disse-me que se não houvesse condições, não. Mas que mãe é capaz de se separar assim, a frio do seu filho? Qual é a mãe que abdica do seu filho para ir para a terra onde o diabo perdeu as botas, por causa de um “trabalho”?
E não vale a pena dizer que o nosso país a tratou mal quando, afinal, nem procurou encontrar solução para o seu problema dentro deste nosso cantinho à beira mar plantado, se sempre “deu muito trabalho” pensar em procurar trabalho fora da sua comfort zone e organizar a vida, partindo do zero, noutro ponto do país.
Se eu fosse o filho dessa mãe, jamais a iria perdoar por me deixar sozinha. Se eu fosse essa mãe, definharia de desgosto a cada dia que passasse longe do meu filho. Se eu fosse filho dessa mãe sentir-me-ia triste e abandonado. Se eu fosse filho dessa mãe, pensaria que a minha mãe era egoísta e que nenhuma razão do mundo seria válida para nos afastar. Se eu fosse mãe desse filho, não pensaria em mim primeiro…